A genética e os Atletas Olímpicos

Os eventos olímpicos inspiram profissionais e amantes do esporte quando testemunhamos a quebra de records pessoais, superação, determinação, foco, disciplina, dedicação, respeito e amor pelo que fazem. Seja na modalidade individual ou em grupo, o alto rendimento, a classificação olímpica e, é claro, a medalha é o sonho de muitos. Além de todos os fatores mencionados acima, a constituição genética tem papel importante para selecionar, destacar e adequar os treinos desse atleta.

Inspirados nos Jogos Olímpicos Rio 2016, escrevemos esse post sobre um estudo publicado no periódico BMC Genomics (2016) que conta com a participação de pesquisadores internacionais e também brasileiros. 

O grupo investigou a associação entre o genótipo da ACNT3 R577X e ACE I/D em atletas velocistas de elite para força/explosão, numa grande coorte de corredores de origem caucasiana e africana de dez países diferentes (entre eles Brasil, Grécia, Austrália, Jamaica, Polônia, Lituânia, Estados Unidos, Itália, Rússia e Espanha). Para tanto, foram coletadas as 550 melhores marcas de 346 atletas corredores, com distâncias de 100m, 200m e 400m.

Estudos anteriores com australianos, finlandeses, gregos, russos, israelenses e até japoneses já mostraram a maior frequência do genótipo 577RR em ACTN3 e menor frequência dos alelos XX em atletas de elite de corrida/explosão (corredores, saltadores e arremessadores) em relação aos seus respectivos controles. 

 

Tabela 1. Melhores tempos (média ± desvio padrão) dos atletas masculinos de acordo com as distâncias e distribuição genotípica em ACTN3

 

No que se refere ao gene da enzima conversora de angiotensina (ECA/ACE), embora ela esteja associada ao controle da pressão arterial, portadores do alelo D estão associados com aumento da atividade da ECA/ACE e parecem ter maior proporção de fibras musculares do tipo glicolíticas e de contração mais rápida. A tabela a seguir extraída do artigo mostra a média dos melhores tempos dos atletas de acordo com a distância e a distribuição do genótipo na ECA/ACE.

 

Tabela 2. Melhores tempos (média ± desvio padrão) dos atletas masculinos de acordo com as distâncias e distribuição genotípica em ECA/ACE

 

Para a prova de 100m não houve diferença significativa entre os genes estudados. No entanto, foi encontrada significante associação entre o genótipo ACTN3 e os melhores tempos na modalidade de 200m e os alelos RR foram significantemente mais rápidos que os indivíduos que apresentavam os alelos XX. Em atletas com decendentes africanos foi verificado o mesmo resultado.

Enquanto o gene da ECA/ACE em caucasianos na prova de 200m indivíduos que apresentavam homozigoze (I/I) obtiveram um tempo melhor em comparação com os atletas que apresentavam genótipo D/D.

Para a prova de 400m, foi verificado que atletas que apresentavam os alelos DD e DI para a ECA/ACE tinham melhores resultados que os atletas com alelos II, sendo que entre os alelos DD e DI não houve diferença significativa. Nenhum dos atletas com alelos II conseguiu atingir o tempo de qualificação para os jogos olímpicos que era de 45.90s.

Nesse estudo, os autores perceberam que atletas com alteração em ACTN3, mas com alelos II para ECA/ACE, que conseguem se classificar para os jogos olímpicos. De todos os atletas não houve casos em que a variação 577XX que apresentava melhor tempo que as classificatórias olímpicas de 2012 para os 200m, e nenhum caso onde a combinação ECA/ACE (DD), que apresentava tempo mais rápido do que as classificatórias olímpicas de 2012 para os 400m.

Em conclusão, eles observaram que há relações entre os efeitos dos genótipos da ACTN3 e da ECA/ACE em atletas de corrida. Ambos os genes modulam fenótipos que influenciam nos resultados de atletas de elite. Enquanto o gene ACTN3 R577X é mais influente nas provas de 200m, o polimorfismo da ECA/ACE em heterozigose (I/D) está mais ligado a performance em provas de 400m. Por fim, com conhecimento e as raras variantes de performance poderão ser utilizados para identificar e treinar corredores de 200m e 400m.

 

Referência:

Papadimitriou ID, Lucia A, Pitsiladis YP, Pushkarev VP, Dyatlov DA, Orekhov EF, Artioli GG, Guilherme JP, Lancha AH Jr, Gineviciene V, Cieszczyk P,Maciejewska-Karlowska A, Sawczuk M, Muniesa CA, Kouvatsi A, Massidda M, Calò CM, Garton F, Houweling PJ, Wang G, Austin K, Druzhevskaya AM, Astratenkova IV,Ahmetov II, Bishop DJ, North KN, Eynon N. ACTN3 R577X and ACE I/D gene variants influence performance in elite sprinters: a multi-cohort study. BMC Genomics.2016 Apr 13;17:285.