MC4R e sua interação na obesidade infantil: Resultados de um follow-up de 2 anos

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De acordo com o Ministério da Saúde, a prevalência de obesidade infantil está aumentando cada vez mais nas últimas décadas, sendo um problema de saúde grave, já que a obesidade infantil aumenta o risco de doenças na fase adulta. Fatores como status socioeconômico, estilo de vida e herança genética contam como diferenças individuais a predisposição da obesidade e suas complicações.

Nesse sentido, estudos estão sendo realizados na tentativa de identificar as variantes genéticas envolvidas no processo de ganho de gordura corporal e no balanço energético de crianças e adolescente.

Embora o polimorfismo no gene FTO (Fat mass and obesity associated) já seja bem conhecido e sua relação com a obesidade já esteja bem estabelecida, outra variante de grande relevância para o fenótipo de excesso de peso corporal é o MC4R (receptor de melanocortina-4).

Para tanto, no presente estudo foram avaliadas duas variantes (rs17782313 e rs17700633) do MC4R, as quais conforme meta-análises recentes confirmaram a associação genética com o índice de massa corporal (IMC) em adultos e crianças, sendo que a variante rs17782313, mostrou grande associação com aumento do IMC durante a infância e se prolongou até os 20 anos de idade.

O gene MC4R apresenta papel importante no controle do apetite e na homeostase energética e sua ativação pode promover redução da ingestão calórica e aumento do gasto energético. O estudo foi realizado para determinar a etiologia de doenças relacionadas ao padrão de dieta e ao estilo de vida em crianças, com foco no sobrepeso, obesidade e as complicações relacionadas. Foram realizadas medidas antropométricas (peso, altura, circunferência de cintura e pregas cutâneas), além da avaliação da ingestão energética e de macronutrientes.

Para a realização do estudo europeu IDEFICS (Identification and prevention of dietary and lifestyle-induced health effects in children and infants), os pesquisadores avaliaram crianças de oito países diferentes (Bélgica, Chipre, Estônia, Alemanha, Hungria, Itália, Espanha e Suécia). Foi realizado um estudo de corte transversal (a) e outro longitudinal (b). As análises se referiram às crianças genotipadas para o rs17782313 (2282 meninos e 2099 meninas) e para o rs17700633 (2281 meninos/2085 meninas).

Para avaliação da expressão gênica de MC4R de células mononucleares do sangue, uma subamostra com 410 crianças participaram dessa etapa, sendo 197 meninos e 213 meninas, com um número similar entre crianças com sobrepeso e peso normal com idades de 2 a 9 anos. Foi avaliado se o rs17782313 poderia afetar a expressão gênica do MC4R e se essas alterações estão associadas com adiposidade e a ingestão calórica diária de lipídeos, carboidratos e proteínas.

       

Tabela 1. Variáveis antropométricas e consumo alimentar após 2 anos de estudo. Dados estratificados de acordo com os percentis para os níveis expressão gênica do MC4R 

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Com os dados obtidos na tabela acima, os pesquisadores observaram que pacientes que possuem maior expressão de MC4R, apresentaram também menor IMC, menor circunferência de cintura, menor soma de dobras cutâneas (tricipital e subescapular), menor percentual de gordura corporal, mesmo com a intervenção dietética com maior teor de lipídeos e menos consumo de carboidratos se comparado aos pacientes que apresentavam menor expressão gênica.

Avaliando os resultados, os dados do estudo de corte transversal concluíram que o alelo C da variante rs17782313 está fortemente associado com valores maiores do z-score para o IMC, para a circunferência da cintura, para a soma das dobras e percentual de gordura corporal. No entanto, o estudo não encontrou associação com a ingestão calórica de carboidratos, proteínas e lipídeos e não foram encontradas associações desses resultados com o rs17700633.

Já no estudo longitudinal, em que as crianças foram acompanhadas por dois anos, o maior percentual gordura corporal foi observado nos carreadores do alelo C, indicando que as associações se mantém conforme o tempo passa. Esse foi o primeiro estudo que mostrou associação significativa entre polimorfismo, expressão gênica do MC4R, percentual de gordura corporal e consumo de macronutrientes da dieta, com destaque para os lipídios e carboidratos.

O gene MC4R faz parte do teste NUTRIJR® e NUTRIGENÉTICA® do Centro de Genomas®, é um entre vários outros genes que avaliam o perfil de obesidade da criança e de adultos para uma prevenção da doença e as complicações que a acompanham.

 

Referência:

Lauria F, Siani A, Picó C, Ahrens W, Bammann K, De Henauw S, Foraita R, Iacoviello L, Kourides Y, Marild S, Molnar D, Moreno LA, Pitsiladis Y, Sánchez J, Veidebaum T, Wang G, Russo P; IDEFICS consortium. A common variant and the transcript levels of MC4R gene are associated with adiposity in children: the IDEFICS Study. J Clin Endocrinol Metab. 2016 Sep 1:jc20161992.