Câncer Colorretal: estratégias, opções e decisão.

Câncer Colorretal: estratégias, opções e decisão.

O Câncer Colorretal é a segunda causa de morte por câncer nos Estados Unidos.  No Brasil, as estatísticas nacionais atribuíram  mais de 11.000 mortes no ano de 2007 a este tipo de câncer, sendo praticamente igual o número de mulheres e homens que pereceram desta neoplasia naquele ano. Trata-se, portanto, de um tipo de câncer prevalente, sem predileção por sexo e que é considerado como potencialmente curável quando detectado precocemente.

Acredita-se que o “screening” (rastreio, uma espécie de busca ativa da doença, mesmo em um momento em que os sintomas são ausentes ou pouco evidentes) de pessoas assintomáticas mas com um nível de risco para a doença, pode detectar este câncer em um estágio precoce, com chances reais de cura.

Identificação das pessoas de alto risco.

O fator de risco mais comum seria o fato de um paciente apresentar um parente de primeiro grau com este câncer, ainda mais se o diagnóstico foi antes dos 50 anos (nestes casos o risco de câncer nos familiares quase dobra). Na ocorrência deste evento, a suspeita diagnóstica recai sobre síndrome hereditária que cursa com este tipo de câncer.

Pacientes nesta situação devem ser acompanhados por profissionais com experiência em síndromes hereditárias para se obter uma adequada investigação familiar.

Para estes indivíduos e seus familiares que forem altamente suspeitos como portadores da predisposição genética ao Cancer Colorretal Hereditário Não-Polipomatoso  podem ser solicitados testes para a investigação desta condição, sendo que estes testes são considerados exames genéticos e necessitam, portanto, do esclarecimento e autorização por parte dos indivíduos envolvidos. Podemos assumir algumas seqüências diagnósticas caso tenhamos ou não, à disposição, a biópsia ou peça do tumor .

Caso o material de biópsia de um familiar que apresentou este câncer estiver disponível, assim como o tecido intestinal normal adjacente, uma opção seria a da realização de um exame genético conhecido como Instabilidade de Microssatélites. Os Microssatélites são regiões do nosso DNA que são especialmente susceptíveis a erros de replicação durante o processo de divisão celular. Quando os genes que são responsáveis pelo conserto da molécula de DNA não estão funcionando de forma adequada, podemos identificar alterações dos Microssatélites no tecido tumoral, quando comparados com o tecido normal. Desta forma identificamos esta instabilidade do material genético que resultou no desenvolvimento daquele tumor em especial. Uma porcentagem dos cânceres colorretais apresenta esta instabilidade e merece investigação adicional, pois sinaliza para possíveis portadores da síndrome genética.

O leitor mais atento já deve ter percebido que o funcionamento inadequado, decorrente de mutações, de alguns genes designados como genes de reaparo de DNA é o elemento chave no desenvolvimento do câncer Colorretal Hereditário Não-Polipomatoso.  Estes genes são conhecidos pelas siglas MLH1, MSH2 e MSH6.

Outro exame que pode ser realizado paralelamente nas lâminas de biópsia do tumor e que pode trazer informações complementares, seria o exame conhecido como Imunohistoquímica. Neste exame são utilizados anticorpos marcados por uma substância química e direcionados contra algumas proteínas específicas. No caso do câncer colorretal os anticorpos são direcionados às proteínas codificadas pelos genes de reparo e que, portanto, recebem o mesmo nome destes genes: MLH1, MSH2 e MSH6. Como são as proteínas que efetuam as funções dos genes, quando uma delas está ausente, e portanto não marcada pelo anticorpo na Imunohistoquímica, temos uma indicação de qual é o gene que pode estar defeituoso.

Uma vez identificada a Instabilidade dos MIcrossatélites, devemos identificar  se o  tumor se originou pelo “silenciamento “ ou por mutação de um destes genes. Esta diferenciação é crucial, pois se o tumor se originou do “silenciamento” de um ou mais genes de reparo, há grande probabilidade de se tratar de um tumor esporádico (não devido a mutações herdadas) ao passo que a identificação de uma mutação em um destes genes identifica os portadores da Síndrome Genética.

Para entendermos outro exame a ser utilizado temos que ter a noção de um conceito genético um pouco mais recente que o conceito de mutação, mas que também vêm sendo implicado na gênese de tumores, da mesma forma que as mutações foram há alguns anos. Trata-se do conceito conhecido como Epigenética, que em última análise se refere ao controle de expressão dos genes, um mecanismo que explica o fato de que, apesar de inicialmente sermos apenas uma célula no útero materno, nos transformamos em um organismo complexo constituído de diferentes tipos de células. Uma das reações moleculares considerada como manifestação epigenética é conhecida como Metilação. Quando um gene é metilado ele acaba sendo inativado e deixa de ser “expressado” por aquela célula. A metilação dos genes de reaparo vêm sendo implicada na gênese de alguns cânceres colorretais esporádicos que apresentam Instabilidade de Microssatélite, e existe um exame, conhecido por um nome auto-descritivo para o leitor que entendeu bem os conceitos acima: Painel de Metilação dos Genes de Reparo. Portanto a identificação da metilação destes genes em uma peça de biópsia ou cirúrgica de um tumor pode ajudar na identificação  de um provável tumor esporádico.